04 de abril - BLOG - imagem Jupiter

Uma homenagem ao Júpiter Maçã

Se existiu um artista que sempre orbitou por aqui na nossa galáxia foi o Júpiter Maçã. Aliás, desde antes da criação do selo Astronauta.

Flávio Basso, ex-TNT, ex-Cascavelletes, gaúcho, além de ter sido um compositor e artista genial, era também uma figura ímpar. Seja nos palcos e estúdios ou fora deles, Júpiter era inquieto, antenado, culto, pesquisador, tocava muito bem sua guitarra e não ligava para o fato de não ser muito afinado como cantor. Até porque, no segmento de música psicodélica mundial, esse nunca foi um fator determinante.

Afugentava coxinhas, certinhos e pessoas caretas de perto dele. Bebia pacas e usava outras drogas, mas nada disso lhe tirou o ímpeto musical. Era muito seguro enquanto personagem do showbiz e, principalmente, tinha estilo. Ah, o estilo do Júpiter era muita admirado.

Além de ter sido compositor do icônico rock psicodélico noventista “Um Lugar do Caralho”, já regravado por Wander Wildner — mas sempre confundido à data de seu lançamento com um outtake do Raul Seixas – Júpiter esteve entre outras ondas. Mas o seu primeiro trabalho, lançado de forma independente pelo selo Antídoto do Raul Albornoz com o selo de música gaudéria Acit, me chamou a atenção. Eu coordenava os labels associados (como eram chamados os selos dentro de majors) da PolyGram, no ano de 1997.

Após convencer o presidente Marcelo Castello Branco, consegui distribuir o selo inteiro como tendência do rock gaúcho daquele período. Dentro do selo, além do Flávio, tínhamos Luciana Pestano (posteriormente Tigra), Colarinhos Caóticos, Papas da Língua, Acústicos & Valvulados e Tequila Baby. Mas eu estava visivelmente mais associado a dois deles: Júpiter e Luciana.

“A Sétima Efervescência Intergaláctica” foi produzido pelo Egisto Dal Santo (que também é icônico no rock do Sul) e, quando distribuímos para todo o Brasil, teve o clipe de “As Tortas e As Cucas” inserido no programa Lado B, que Fabio Massari tinha na MTV. A verdade é que o disco tinha suas nuances em Mutantes, Beatles e Pink Floyd – e muita gente não achou genial, mainstream então deu zero atenção, vivíamos a fase de grandes vendas físicas de compact-discs do É o Tchan e Padre Marcelo Rossi, imagina só esse álbum neste contexto de reuniões de marketing na PolyGram? Mas eu gostava tanto que o Raul Albornoz (selo Antídoto) me deu um pôster do disco, que tratei de colocar na sala do meu apê no Jardim Botânico.

Mas o artista foi ovacionado pelo jornalista Pedro Alexandre Sanches, que o concedeu uma capa no caderno de cultura Ilustrada – ainda tem, mas uma capa dessas tinha importância ainda maior antes da era da internet. 1997: e eu consegui uma verbinha na companhia pra trazer o show de lançamento dele do Sul para a Expo CD, no Riocentro (RJ); depois, acompanhei Júpiter e outros artistas dos quais era label manager no Abril Pro Rock (Recife) de 1998, representando a PolyGram. Teve também um show no Planetário da Gávea, bem louquíssimo. E não passou muito disso.

Afastados pela vida, acompanhei o man de longe. Júpiter esteve nas ondas eletrônicas também, com “Plastic Soda” e “Hisscivilization”, além da parceria com Bibmo. Fez “Uma Tarde na Fruteira”, que é incrível. Reconectei com ele para um convite.

Era 2009 e o vocalista de uma banda daqui do selo, O Divã Intergaláctico, pediu que eu chamasse o Arnaldo Baptista ou o Júpiter para participar do disco de estréia dele. Falou “duvidando” que eu o faria ou podia, mas sim, eu convidei o Júpiter e o convenci a participar dizendo que os meninos tinham claras influências dele – o que é verdade. Também foi uma forma de Júpiter se ver reconhecido e nos reencontramos em Niterói (RJ), para gravação na Tomba Records. Esse dia teve churras no Steak House, Júpiter estava sóbrio, mas eu bebi todas as brejas da geladeira com a banda, tomamos café e o hospedamos num hotelzinho bem simpático. Júpiter gravou, a música saiu (está no player deste site) e ficou ótima. Eu o entrevistei. Tem essa entrevista aqui, olha só:

Décadas depois (2007), em uma matéria da revista Aplauso, o disco foi eleito o melhor álbum do rock gaúcho. E para a revista Rolling Stone Brasil, é um dos 100 maiores discos da música brasileira, ficando na 96ª posição. Fiz uma matéria para a Billboard Brasil com ele em 2011 (VEJA AQUI) e estivemos juntos pela última vez no camarim do Rock in Rio do mesmo ano, quando ele cantou no Palco Sunset com a banda Cidadão Instigado.

Flávio Basso voltou para o planeta Júpiter. Mas não sem antes fazer um estrago no Planeta Terra! Salve Jup!

Boa sorte a você, leitor. E saúde!

#fiqueemcasa

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